Os resultados da retatrutida chamaram atenção ao mostrar uma perda média de peso próxima de 30% em alguns participantes. Com números tão expressivos, surgiu uma pergunta inevitável: a retatrutida será realmente melhor que a tirzepatida?
A resposta mais correta, neste momento, é: os resultados da retatrutida são numericamente superiores, mas ainda não podemos afirmar definitivamente que ela seja melhor.
Isso acontece porque os medicamentos foram avaliados em estudos diferentes, com participantes, doses, duração e critérios próprios. A comparação direta entre retatrutida e tirzepatida já está sendo estudada, mas ainda não temos o resultado final.
Além disso, a retatrutida continua sendo um medicamento experimental. Ela ainda não foi aprovada para comercialização nos Estados Unidos nem no Brasil.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é um medicamento injetável de aplicação semanal desenvolvido para o tratamento da obesidade, do sobrepeso e de algumas doenças metabólicas associadas.
Ela vem sendo chamada de “agonista triplo” porque atua simultaneamente nos receptores de três hormônios:
- GLP-1;
- GIP;
- glucagon.
Essa ação tripla é a principal diferença em relação à tirzepatida, que atua nos receptores de GLP-1 e GIP.
Em termos simples, a retatrutida foi desenvolvida para agir tanto sobre a ingestão de alimentos quanto sobre diferentes mecanismos relacionados ao metabolismo energético.
Como a retatrutida age no organismo?
Para entender por que existe tanta expectativa em torno da retatrutida, precisamos analisar separadamente seus três mecanismos.
GLP-1: menos fome e mais saciedade
O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após a alimentação. Entre seus efeitos estão:
- aumentar a sensação de saciedade;
- reduzir a fome;
- retardar o esvaziamento do estômago;
- estimular a liberação de insulina quando a glicose está elevada;
- ajudar no controle da glicemia.
Esse é um dos principais mecanismos presentes em medicamentos como semaglutida, tirzepatida e retatrutida.
GIP: controle metabólico e ação conjunta com o GLP-1
O GIP também é um hormônio intestinal relacionado à resposta do organismo aos alimentos. A ativação de seu receptor pode contribuir para melhorar a secreção de insulina e, quando combinada ao GLP-1, potencializar a perda de peso e o controle metabólico.
É essa combinação de GLP-1 e GIP que diferencia a tirzepatida dos medicamentos que atuam apenas no GLP-1.
Glucagon: o terceiro mecanismo da retatrutida
A retatrutida acrescenta a ativação do receptor do glucagon. O glucagon é frequentemente lembrado apenas como um hormônio que aumenta a glicose no sangue. Entretanto, sua fisiologia é mais complexa. A ativação controlada desse receptor também pode influenciar:
- o gasto energético;
- a utilização de gordura como fonte de energia;
- o metabolismo do fígado;
- a mobilização de reservas energéticas.
Parte da hipótese científica é que a ação combinada nos três receptores permita reduzir a ingestão alimentar e, ao mesmo tempo, influenciar o metabolismo energético.
Entretanto, não é correto afirmar que a retatrutida “acelera o metabolismo” de todas as pessoas de maneira simples ou garantida. Parte desse mecanismo foi demonstrada principalmente em estudos experimentais, e sua contribuição exata para os resultados em seres humanos continua sendo investigada.
Quanto peso a retatrutida conseguiu reduzir?
Os primeiros resultados do estudo de fase 3 TRIUMPH-1 foram divulgados pela Eli Lilly em maio de 2026. O estudo avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes, durante 80 semanas.
Na análise apresentada pela empresa, a perda média de peso foi de:
- 19% com 4 mg;
- 25,9% com 9 mg;
- 28,3% com 12 mg;
- 2,2% com placebo.
Entre os participantes que receberam 12 mg, 45,3% perderam pelo menos 30% do peso corporal.
Uma extensão do estudo acompanhou até 104 semanas participantes que iniciaram com índice de massa corporal igual ou superior a 35. Nesse grupo específico, a perda média chegou a 30,3% com a dose de 12 mg.
Portanto, dizer apenas que “a retatrutida emagrece 30%” pode induzir a uma interpretação errada. O número não representa o resultado de todas as pessoas e não significa que cada paciente perderá essa quantidade.
Trata-se de uma média observada em condições controladas de pesquisa, na dose mais alta e, no caso do resultado de 30,3%, em um grupo específico acompanhado por mais tempo.
E em pessoas com diabetes tipo 2?
No estudo TRIUMPH-2, pessoas com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2 foram acompanhadas durante 80 semanas. A maior dose estudada, de 12 mg, produziu uma perda média de peso de 20,8%. Também houve redução média de até 1,6 ponto percentual na hemoglobina glicada.
É comum que participantes com diabetes tipo 2 apresentem uma redução de peso um pouco menor do que aqueles sem diabetes. Mesmo nesse contexto, o resultado foi expressivo.
No TRIUMPH-3, que incluiu pessoas com obesidade grave e doença cardiovascular estabelecida, a perda média chegou a 22,6% com a maior dose.
Entretanto, esse estudo não demonstrou de maneira conclusiva uma redução de mortes, infartos ou acidentes vasculares cerebrais. O número desses eventos foi menor do que o previsto, o que limitou a capacidade de chegar a uma conclusão confiável.
O estudo específico de desfechos cardiovasculares e renais, chamado TRIUMPH-Outcomes, continua em andamento.
Retatrutida ou tirzepatida: qual emagrece mais?
Nos estudos individuais, a retatrutida apresentou números maiores. No SURMOUNT-1, a tirzepatida produziu perda média de até 20,9% do peso corporal em 72 semanas, considerando a análise principal do estudo. No TRIUMPH-1, a retatrutida chegou a 28,3% em 80 semanas com a dose de 12 mg.
| Característica | Tirzepatida | Retatrutida |
|---|---|---|
| Receptores | GLP-1 e GIP | GLP-1, GIP e glucagon |
| Tipo de medicamento | Agonista duplo | Agonista triplo |
| Maior perda média no estudo principal citado | 20,9% em 72 semanas | 28,3% em 80 semanas |
| Situação regulatória | Aprovada para indicações específicas | Ainda experimental |
| Experiência na prática clínica | Ampla e crescente | Ainda não disponível oficialmente |
Embora a comparação seja interessante, ela tem uma limitação importante: colocar lado a lado resultados de estudos diferentes não equivale a comparar diretamente os medicamentos.
Para responder de maneira definitiva, precisamos de um estudo que distribua participantes semelhantes para receber retatrutida ou tirzepatida sob as mesmas condições. Esse estudo comparativo já está registrado e em andamento.
Até que seus resultados sejam conhecidos, a conclusão mais equilibrada é: a retatrutida apresentou uma perda média de peso numericamente maior, mas ainda não foi comprovado que seja superior à tirzepatida em uma comparação direta.
Também não sabemos se uma eventual vantagem na perda de peso será acompanhada por melhor tolerabilidade, segurança, preservação de massa magra e manutenção dos resultados em longo prazo.
Quais são os efeitos colaterais da retatrutida?
Os efeitos adversos mais frequentes observados até agora foram gastrointestinais, especialmente:
- náuseas;
- diarreia;
- vômitos;
- constipação;
- redução excessiva do apetite.
Esses sintomas foram mais comuns durante o aumento das doses e geralmente apresentaram intensidade leve ou moderada.
Nos estudos anteriores também foi observado aumento da frequência cardíaca, com tendência de redução após o período de elevação da dose. Esse ponto exige acompanhamento, principalmente em pessoas com doenças cardiovasculares.
Como a retatrutida ainda está em investigação, seu perfil completo de segurança somente ficará mais claro com estudos maiores, acompanhamento prolongado e eventual utilização por uma população mais ampla.
Como explico também no conteúdo sobre canetinhas e risco de pancreatite, segurança e acompanhamento precisam fazer parte da decisão. Perder mais peso não torna automaticamente um medicamento melhor. Uma boa avaliação também precisa considerar tolerabilidade, efeitos adversos, preservação da massa muscular, segurança cardiovascular, controle da glicemia, adesão ao tratamento e manutenção do resultado.
Quando a retatrutida deve chegar?
Em julho de 2026, a Eli Lilly informou que pretende solicitar a aprovação da retatrutida ao FDA no primeiro trimestre de 2027. Isso não significa que o medicamento chegará ao mercado nesse período.
Depois da submissão, a agência reguladora precisará analisar os dados de eficácia, segurança, fabricação e qualidade. O processo pode resultar em aprovação, solicitação de informações adicionais ou atraso.
No Brasil, ainda não existe uma data oficial. Mesmo após uma possível aprovação nos Estados Unidos, será necessário aguardar a submissão à Anvisa, a análise regulatória brasileira, a aprovação das indicações e a definição comercial.
Também ainda não existe um nome comercial oficialmente confirmado para a retatrutida.
Cuidado com a “retatrutida” vendida atualmente
Não existe, atualmente, uma versão comercial da retatrutida aprovada pelo FDA ou pela Anvisa.
Produtos anunciados na internet, em redes sociais ou oferecidos como “retatrutida manipulada”, “peptídeo para pesquisa” ou “versão importada” não correspondem a um medicamento oficialmente aprovado.
O FDA já alertou que produtos não aprovados podem apresentar ingrediente diferente do anunciado, concentração incorreta, contaminação, ausência da substância declarada e riscos relacionados à fabricação e ao armazenamento.
Não é possível aplicar os resultados dos estudos da Eli Lilly a produtos de procedência desconhecida. Utilizar uma substância injetável não aprovada pode expor o paciente a riscos graves.
Vale a pena esperar pela retatrutida?
A expectativa é justificável. A retatrutida pode representar um avanço importante no tratamento da obesidade e de suas complicações.
Porém, não faz sentido deixar uma doença crônica sem tratamento esperando por um medicamento que ainda não foi aprovado.
Já existem estratégias com evidência científica para o emagrecimento, o tratamento da obesidade, do diabetes e do risco cardiovascular. A decisão terapêutica deve considerar o que está disponível, a condição de saúde do paciente e o acompanhamento necessário para preservar massa muscular, controlar efeitos adversos e reduzir o risco de reganho e do efeito sanfona.
O melhor medicamento não é apenas aquele que apresenta o maior número em um estudo. É aquele que possui indicação adequada, segurança, tolerabilidade e capacidade de produzir um resultado sustentável para cada pessoa.
Conclusão
A retatrutida atua nos receptores de GLP-1, GIP e glucagon e apresentou resultados inéditos nos estudos de fase 3, chegando a uma perda média de 28,3% em 80 semanas na maior dose do TRIUMPH-1.
Esses números são superiores aos observados nos principais estudos anteriores com tirzepatida. Entretanto, ainda não comprovam que a retatrutida seja definitivamente melhor, porque os resultados vieram de estudos diferentes.
A retatrutida permanece experimental, não possui data oficial para chegar ao Brasil e não deve ser adquirida por canais clandestinos ou utilizada fora de pesquisas autorizadas.
Ela pode representar a próxima geração do tratamento da obesidade. Mas expectativa científica, aprovação regulatória e disponibilidade para os pacientes são etapas diferentes.
Dr. Wellington Reis
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa e não substitui uma consulta médica individualizada. Medicamentos, mudanças alimentares e estratégias de emagrecimento devem ser avaliados com um profissional habilitado, considerando as necessidades e condições de saúde de cada pessoa.
Referências bibliográficas
- Jastreboff AM, et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity: A Phase 2 Trial. New England Journal of Medicine. 2023;389:514-526.
- Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine. 2022;387:205-216.
- Eli Lilly and Company. TRIUMPH-1: resultados de fase 3 da retatrutida. 21 maio 2026.
- Eli Lilly and Company. TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3: resultados de fase 3. 23 julho 2026.
- ClinicalTrials.gov. Retatrutida comparada à tirzepatida em adultos com obesidade, NCT06662383.
- ClinicalTrials.gov. TRIUMPH-Outcomes, NCT06383390.
- FDA. Concerns with unapproved GLP-1 drugs used for weight loss. Atualizado em 2026.
